
A Antropóloga, professora aposentada da Universidade Federal da Paraíba e consultora do NUPAUB/USP, Lúcia Helena de oliveira Cunha, elaborou uma tipologia da produção pesqueira no litoral do Paraná com proposta de reflexão centrada na questão dos diálogos entre saberes. Andriguetto estabelece as práticas de pesca ali existentes. Para os interesses do presente estudo, depreende-se que a pesca artesanal subdivide-se na Pesca Rudimentar, que inclui as zonas com baixa intensidade tecnológica e baixa produção; e na Pesca Artesanal Diversificada de média tecnologia, que abrange as zonas de mais alta diversificação de práticas pesqueiras, mas de média intensidade tecnológica e baixa ou média produção. Essas últimas zonas correspondem às áreas estuarinas da APA de Guaraqueçaba, no litoral norte do Paraná, que, segundo o autor, “se apresentou assim como um espaço pesqueiro, com identidade própria” (ANDRIGUETTO FILHO, 1999).
Com base no seu artigo, dividi o texto com temas centrados para melhor compreensão. Em cada leitura uma abordagem referente a comunidade pesqueira (litoral do Paraná) mas que podem ser transportado para outras regiões conforme o entendimento já pesquisado.
Os pescadores artesanais são denominados de “povos da tradição”, simbolicamente representados, reveste-se de significações próprias em conformidade aos distintos olhares do mundo urbano. Sua forma de trabalho – a pesca – sequer é legitimada como tal, ignorando-se os múltiplos modos de produção ou de relacionamento do homem com a natureza – mediados pelo trabalho – que atravessam a história.
Tradição
Entendendo a tradição ou os “povos da tradição” em movimento, Bornheim (1987), recorre ao sentido etimológico da palavra e assinala: “(...) tradição vem do latim traditio e significa igualmente entregar, designa o ato de passar algo para outra pessoa, ou de passar de uma geração a outra geração. Em segundo lugar os dicionaristas referem a relação do verbo tradire com o conhecimento oral e escrito. Isso quer dizer que, através da tradição, algo é dito e o dito é entregue de geração a geração. Em tais termos é que a idéia de tradição é marcada pela repetição e estabilidade, não abrindo margem à variação, enquanto a modernidade se movimenta pelo ritmo contínuo das mudanças, da novidade (Cunha 2002)¹.
A tradição é algo dinâmica, algo que transita, que se movimenta, deslocando-se assim, o sentido convencional que é imputado a palavra tradição ( ou a processos histórico-sociais tradicionais). Sem desconhecer que há tradições e tradições, o que importa marcar, aqui, é “que algo é entregue” de geração a geração para reproduzir no tempo – ainda que ressignificado no fluxo da história.
Preocupado com os fenômenos que tendem a desarticular as formas tradicionais de organização social do pescador artesanal, assim coloca Vieira (1995, p. 306-312): “... em termos mais concretos caberia empreender, num primeiro momento, a diversificação do potencial de recurso existente em cada microrregião litorânea, em sintonia com a valorização de formas tradicionais de conhecimento detidas pelos pescadores”. A partir daí o autor propõe a Gestão Patrimonial de Ecossistemas Litorâneos.
O olhar para o pescador artesanal
É corrente referir-se aos pescadores como povos atrasados, indolentes, preguiçosos, como se sua forma de organização social fosse destituída de dinâmica e racionalidade.
De outro lado, aludindo-se ao mito do paraíso perdido, os pescadores artesanais são vistos, muitas vezes, romanticamente vivendo no reino da natureza, quase como se com ele se confundissem, numa relação mimética. Essa visão idílica do pescador artesanal, centrada numa concepção fixa e exterior da natureza, tende a congelá-lo no tempo, como se fosse ausente de movimento, ausente de desordens. Assim, por não se inscrever no ritmo veloz dos tempos modernos, que incessantemente parece anunciar a emergência de “novos tempos” (em termos reais e fantasmagóricos), o pescador artesanal ou os chamados caiçaras aparecem desprovidos de sentido de tempo – ou, mais especificamente, de tempo em movimento –, estando dessa maneira condenados a ser eternamente os mesmos, eternamente passado.
olhar para o pescador artesanal (ou para o caiçara) como povo ausente de história, ultrapassado é negar sua relação secular com o ambiente em que vive, negar todo conhecimento acumulado de sua reprodução social e dos ecossistemas em que vive. Nesse sentido, além de destituírem o pescador artesanal de sua condição de humanidade, os olhares externos desconhecem que esse sujeito social tem uma forma de ordenação temporal e espacial dissonante daquela do contexto urbano-industrial e um conjunto de saberes patrimoniais decorrentes de sua interação secular com a natureza, dos quais a modernidade não pode prescindir para sua continuidade no tempo. Nisso, em que pesem as mudanças sociais que se vêm processando no interior das comunidades pesqueiras nas últimas décadas, descaracterizadas pela expansão da urbanização, do turismo e da especulação imobiliária em seus territórios (CUNHA, 1987-2000).
O tempo do pescador artesanal
Embora a “produção artesanal pesqueira” esteja inscrita na chamada pequena produção mercantil simples – portanto, subordinada desde sua gênese histórica ao “tempo do relógio” – é possível dizer que os pescadores artesanais ainda tecem seu próprio tempo num ritmo dissonante do ritmo urbano-industrial, pois suas vidas seguem os movimentos próprios da natureza – das marés, das espécies, dos astros e da atmosfera. A rigor, é um ritmo que se funda, de um lado, na especificidade do ecossistema marinho, imprevisível, cíclico e móvel; e, de outro, na atividade produtiva – a pesca –, entrelaçada com a passagem das espécies nas águas (com seu ciclo biológico e movimento migratório), regulando o tempo de trabalho. Pode-se dizer, seguindo Thompson (1978), que há ainda um “tempo natural” no interior das comunidades pesqueiras regulando o seu tempo de trabalho, ainda que articulado a outras temporalidades. É a pesca que comanda os horários do dia-a-dia, a sucessão, o ordenamento das tarefas e seus intervalos, no entrelaçamento da atividade com a natureza (Cunha, 1987).
Partindo do contraponto que Thompson estabelece entre o tempo do relógio e o tempo natural, entende-se por tempo do relógio toda produção e forma de ordenação social inscrita nos marcos do capitalismo, em que o relógio, como medida abstrata e externa de tempo, atua nos núcleos pesqueiros, em particular com a introdução de barcos motorizados, sofisticação dos apetrechos de pesca e intensificação da produção mercantil, com grau de dependência acentuado dos intermediários e presença intensa do turismo. De acordo com Thompson (op. cit), utilizamos também a categoria tempo natural, que não deve ser confundida com tempo em si da natureza. Conforme observamos, o tempo natural se manifesta nos núcleos pesqueiros artesanais a partir da relação que os homens do mar têm com a atividade e seus ciclos naturais.
O espaço e seus significados
Não obstante já revele desarticulação de práticas e formas de saber vividas no passado, a pesca artesanal requer todo um arsenal de conhecimento acumulado sobre o espaço marítimo, construído pela experiência, abstração e intuição. Nesse processo, é possível verificar na cultura tradicional dos pescadores artesanais uma noção tridimensional do espaço, que abrange seus distintos domínios de vida – mar, terra e céu – dotados de significado.
A par dessa concepção tridimensional do espaço, há de se considerar o mar como locus privilegiado da reprodução social do pescador artesanal, onde a apropriação dos recursos pesqueiros se dá de forma indivisa. Embora essa apropriação não seja homogênea – realizando-se mediante o trabalho dos grupos pesqueiros – é possível configurar o mar como espaço de propriedade comum dos pescadores artesanais, do qual extraem sua sobrevivência, ainda que marcada por disputas, tensões e conflitos.Aliás – convém salientar – esse espaço não configura apenas um espaço da sobrevivência material, mas um espaço de sociabilidades distintas, marcadas por arranjos próprios no desenvolvimento das diversas modalidades de pesca e por representações simbólicas, advindas da relação secular do pescador com o mar. A rigor, entre uma profusão de imagens, plena de significações, “os pescadores articulam seu conhecimento acerca da natureza a partir de dois movimentos: o de estender a ela as suas próprias capacidades intelectiva e volitiva e de aceitar alguns de seus fenômenos como indecifráveis, constituindo os mistérios, que preferem admirar a desvendar” (SILVA, 2000, p. 92).
Para Silva (2000,p.92) “as grandes diferenças que opõem a concepção ‘científica’ – intelectualista e voltada para a construção de um saber repousado sobre a ‘objetividade’, da nativa – holista e totêmica não ofuscam o que ambas podem manter de comum, visto que, voltando a Lévi-Strauss (1966), não só compartilham o critério exterior mas também respondem à ‘exigência de ordem que está na base (...) de qualquer pensamento humano”.
A lua e sua atuação
Ainda que de modo difuso e fragmentário em face das mudanças sociais que sofreram as comunidades pesqueiras nas últimas décadas – em especial os chamados caiçaras – a lua, de acordo com as representações sociais do pescador, é um dos astros que atua em seu universo eco-produtivo, favorecendo boas ou más pescarias. “A lua mexe com a pesca, a lua mexe com tudo.” Tais expressões são muitas vezes evocadas pelos pescadores artesanais e integram particularmente o universo cósmico dos mais velhos.
A lua é o principal componente que atua no ciclo da maré, condicionando a elevação do nível do mar, a força da corrente, influindo na presença do peixe no espaço aquático e na modalidade de captura (CUNHA; ROUGEULLE, 1989).
Os ventos
Os ventos também interferem na dinâmica pesqueira. Segundo moradores de Guaraqueçaba, o leste e nordeste seriam os melhores ventos para a pesca, particularmente para espécies como camarão, miraguaia, bagre e parati. Os ventos oeste e sudoeste, ao contrário, trazem dificuldades: “o oeste, o sudoeste são ruins para nós”, diz um pescador da Ilha das Peças. No caso da pesca da tainha, existem características particulares: o vento sul, chamado “rebojo”, faz baixar a temperatura ambiente, que “faz correr a tainha”, e é esperado com impaciência na época da safra; ele condiciona a chegada dos cardumes pela costa, e as alterações que muitas vezes ocorrem fazem com que os cardumes tendam a se dividir.
O ecossistema e conservação
Apesar de toda sorte de estereótipos atribuídos ao pescador artesanal e das ameaças a seus territórios tradicionais, a apropriação do ecossistema marinho é mediada por um complexo sistema cultural marcado por um manejo sábio dos recursos pesqueiros que os homens do mar desenvolveram ao longo do tempo.Em incursões realizadas anteriormente no litoral sul e nordeste do Brasil, pudemos observar, in loco, que há ainda nas comunidades pesqueiras pesquisadas um relativo estado de conservação – em particular no litoral norte do Paraná (Guaraqueçaba). Vejam em CUNHA; ROUGELLE. Comunidades litorâneas e unidades de proteção ambiental: convivência e conflitos; o caso de Guaraqueçaba (PR). São Paulo: NUPAUB – USP,1989. Esse estudo, além de levantamentos feitos em várias ilhas da região, em termos exploratórios, centrou-se em duas comunidades: Ilha das Peças e Tromomô – uma por desenvolver uma pesca típica de baía; caso de Tromomô – outra por incluir a pesca de interior de baía, a pesca de mar aberto; caso da Ilha das Peças. Esse estudo mostra que, embora sofrendo alterações, muitos dos processos ainda se mantém.
Ressalte-se que esse estado de conservação é derivado da forma secular com que as populações tradicionais locais se apropriaram do espaço marítimo e de seus recursos, e de toda uma sabedoria oriunda de seu sistema de vida tradicional.
Assim, ao longo do tempo, tais populações pesqueiras desenvolveram – mediante a observação rigorosa da natureza e a experimentação – mecanismos de controle ecológico, como forma de adaptar-se ao seu espaço ecoprodutivo e, ao mesmo tempo, conservá-lo. Tais formas conservacionistas envolvem desde a observação sistemática da natureza, de acordo com suas “leis” e movimentos internos, até mitos, crenças, normas e tabus culturais, que concorrem para o equilíbrio e reprodução dos ecossistemas marinhos.
No contexto da relação sociedade-natureza, típica do universo dos caiçaras, é possível evidenciar tanto mecanismos de ordem natural quanto de ordem cultural regulando a vida social: entre os primeiros, citam-se, como exemplo, os chamados sistemas de alerta, que, por meio da combinação dos ventos, das condições da maré e da lua, indicam se as condições são favoráveis para as pescarias ou não. Na verdade, são mecanismos naturais que se interpõem no universo da pesca, porém elaborados ou apropriados socialmente a partir da observação, da experimentação e da cosmovisão. Esses “sistemas de alertas” são mecanismos que indicam as condições de perigo ou evitam o livre acesso de outros pescadores nos mesmos pontos – o que acabaria por levar ao esgotamento dos recursos.
Ademais, os pontos pesqueiros constituem mecanismos de controle ecológico, pois evitam que a apropriação dos recursos seja realizada de modo indiscriminado e generalizado, ocasionando seu esgotamento (MALDONADO, 1989). Em Guaraqueçaba, por exemplo, pudemos constatar que, no passado, os pescadores não capturavam os camarões no baixio, onde se encontravam os indivíduos jovens dessa espécie.
Recentemente, a bióloga Érika Fernandes Pinto (2002) desenvolveu um estudo nessa mesma região, especificamente em Barra do Superagüi -- localizado em torno do Parque Nacional do Superagüi, em Guaraqueçaba, tem cerca de 1 - 110 habitantes distribuídos em 230 residências (PINTO, 2002) -- com a preocupação de configurar os modelos cognitivos presentes nos pescadores de pequena escala voltados para os aspectos etnotaxinômicos e etnoecológicos.
Para essa autora, os resultados do estudo revelam que os pescadores de Barra do Superagüi “possuem um conhecimento refinado e detalhado sobre os hábitos alimentares e das interações tróficas entre diferentes grupos de organismos, elaborando cadeias tróficas até seis níveis” (Fernandes Pinto, p. 2001). Isso revela um conhecimento extremamente detalhado dos peixes e de seu ambiente natural, assim como um refinado sistema classificatório, no qual a categoria peixe aparece numa extensa e hierárquica lista de 588 nomes distintos, que reflete riqueza e diversidade Afora a identificação de tabus e restrições alimentares, numa incidência de 26 recursos pesqueiros relacionados como tal, Fernandes Pinto (2002, p. 19) detectou 37 recursos marinho-estuarinos utilizados para a prevenção e tratamento de enfermidades, os quais podem ser classificados como elementos que integram a “medicina local”, ainda que, como alerta a autora, em conseqüência de processos sociais externos tenha ocorrido descaracterização e perda desse tipo de conhecimento, referido muitas vezes como “coisa dos antigos” ou “crendice” (FERNANDES PINTO, 2002, p. 20).
Em nosso estudo na Ilha das Peças, pudemos também constatar a existência de tabus alimentares que, direta ou indiretamente, concorriam como mecanismo conservacionista, tanto no universo da pesca quanto no da caça e da coleta. No período em que a mulher permanecia em “resguardo” após o parto, por exemplo, apenas algumas espécies eram comestíveis e outras sofriam proibição no interior do grupo doméstico e social.
Sobre o litoral paranaense é possível registrar, ainda, o estudo de Thomas (1997), que focaliza especificamente a Ilha do Mel, localizada na entrada da Baía de Paranaguá. Nesse estudo, a autora descreve as representações dos nativos acerca da vegetação da ilha, em parte de sua extensão. Em suas origens, a população local − constituída de índios, brancos e negros − vivia da pesca artesanal e da agricultura. Segundo a autora, foi a partir das décadas de 70 e 80 que o turismo ali se intensificou, abalando sua dinâmica socioambiental.
Em face do turismo, do desmatamento e do superpovoamento, o Estado se viu compelido a criar medidas para controlar a ocupação desenfreada, ainda que as unidades de conservação ali instaladas não envolvam a população local nas formas de manejo socioambiental. É nesse contexto que se decreta a criação na ilha da Estação Ecológica, com 2 240,69 ha, e da Reserva Natural, com 345,79 ha – áreas que representam 93% do espaço total da Ilha.
Considerando a riqueza do universo socioambiental principalmente dos ilhéus mais velhos, cabe perguntar: Qual o espaço que restou para os nativos desenvolverem suas atividades tradicionais? Até que ponto essas unidades de conservação – que dicotomizam a relação sociedade-natureza
– não acabaram por excluir o homem nativo de seu habitat natural e social? Diante da importância do mato e dos manguezais da Ilha do Mel, Thomaz (1997) procurou captar “as representações sociais que personificam elementos simbólicos constituídos num tempo longo, veiculados no imaginário social que geram significações e dão sentido à realidade”. Referindo-se aos vários ambientes que integram a Ilha do Mel, com foco no mato ou na floresta, os seguintes depoimentos sugerem uma percepção integrada do ecossistema da Ilha e das suas peculiaridade em vários momentos:
“ ...é do mato que a gente sobrevive, né, se só tivesse areia aqui não dava pra morar, o mato ajuda a segurar a terra...”
“... com árvore a Ilha fica mais segura, se tirar tudo, fica sem árvore (...) o que segura Ilha são as árvores.” Outros estudos significativos sobre manejo sábio dos recursos naturais são os de Born e Rodrigues, nos quais as autoras focalizam a riqueza dessa mata, registrando a cultura do Vale do Ribeira e sua biodiversidade. Apesar da destruição que a Mata Atlântica vem sofrendo, principalmente a partir da década de 70 em conseqüência da superexploração das espécies, em particular das brejaúvas para a produção de hashi em escala industrial, é possível ainda evidenciar a grande riqueza biológica, genética e cultural da região.
Embora tais riquezas sejam pouco conhecidas, “as comunidades locais e tradicionais e os grupos étnicos (índios e remanescentes de quilombos) que vivem nas áreas da mata atlântica, detêm grande conhecimento sobre a dinâmica e o uso de vários recursos naturais dessa mata...” (BORN e RODRIGUES, 1998).
Entre várias espécies (tucum, guamiova, cipós, taquara e bambu), esse estudo concentra suas observações na extração da brejaúva – uma palmeira robusta, com grande quantidade de espinhos negros. Os artesãos da região classificam dois tipos de brejaúva: a airi e airu, conhecidas também como preta e branca, respectivamente. Uma de suas características principais é de ser uma árvore fibrosa, popularmente chamada “marfim vegetal”. O florescimento da brejaúva ocorre na início do ano e sua frutificação em junho, atingindo sua maturação em janeiro, quando se dá a coleta dos frutos.
Baseadas em suas pesquisas, Born e Rodrigues salientam que há uma forma de manejo na extração das brejaúvas airí e airú, adquirida na longa vivência das populações tradicionais na região. Por exemplo, a extração do fruto da árvore comumente se realiza durante a lua minguante; caso contrário “sofre ataque de brocas”. Ademais, segundo as autoras em questão, os artesãos diversificam as áreas visitadas para evitar o esgotamento dos frutos e “escolhem o indivíduo mais ‘velho’, pertencente a uma touceira, antes de cortálo próximo ao chão com uma machado ou serrote”. Esse processo é seguido de um conjunto de critérios, desde a altura das árvores (deve ter cerca de 8 cm), posição e densidade das folhas (quanto mais velha a brejaúva menor a densidade de suas folhas caídas no chão), até distribuição dos espinhos no caule (ao envelhecer, a brejaúva perde os espinhos da parte inferior do caule).
Cabe realçar que as populações tradicionais somente efetuam a extração de outras plantas da mesma touceira depois de 10 anos – tempo necessário para o nascimento e maturação de outros frutos. “A extração de uma palmeira muito jovem compromete o aproveitamento de seu marfim...” (BORN e RODRIGUES, 1998).
Após a extração é que as populações locais indicarão o tipo de artesanato mais adequado para cada material, observados os tamanhos dos gomos no caule. Da palmeira, os artesãos fazem colheres, botões, hashis, tomando vários cuidados antes de proceder ao corte, como, por exemplo, identificando as partes do marfim vegetal que poderão ser aproveitados como matéria-prima para as variedades de artesanato, incluídas as esculturas que, inspiradas na natureza da região, adquirem a forma de pássaros (garça, coruja, macuco) e outros animais da Mata Atlântica.
Em que pesem os fatores externos que ao longo do tempo ameaçam a reprodução da brejaúva, esse é outro exemplo significativo do manejo sábio desse marfim vegetal praticado pelas populações tradicionais.
Diegues (1987, 2001) tem também demonstrado exaustivamente em seus estudos a existência de várias técnicas de apropriação dos recursos pesqueiros com característica conservacionista, entre as quais cita mecanismos de controle ecológico fundados no conhecimento e no segredo dos pontos pesqueiros, nos quais os “mestres” da pesca evitam o livre acesso de outros pescadores, como já foi dito. Tais mecanismos são regulados por arranjos culturais próprios, pois a prioridade de acesso a esses pesqueiros é norteada por uma ética baseada no “respeito” e no compadrio.
Cordell (1983) registra que o controle dos locais de pesca pelos mestres pode ocorrer também em função do ciclo lunar. Aliás, não podemos deixar de mencionar aqui a importância que a mestrança (MALDONADO, 1993) ou a atividade do “proeiro” adquire como bem patrimonial, expressando a sabedoria dos mais velhos, dos mais hábeis e experientes – daqueles que acumularam durante sua vida, de modo integrado, o saber-fazer. Tais mecanismos, no conjunto, revelam a existência de um complexo sistema cultural engendrado com grande sabedoria das condições naturais da vida e integrada à natureza, a seus ciclos e movimentos. Resgatar esse sistema cultural dos povos do mar – ainda que ressignificado no contexto da modernidade – é um desafio que se coloca para a ciência e para a história. Uma nova relação sociedad e natureza
implica, necessariamente, a valorização das formas tradicionais de produção.
Isso não significa elogio ao “primitivo”, às formas tradicionais pesqueiras – sabe-se que, longe de um paraíso, tais formas sociais vivem entre ordens e desordens – ordens e desordens são categorias reguladoras da vida humana, ainda que dotadas de historicidade. Trata-se apenas de “reengendrar” ou “reencarnar” essas formas sociais tradicionais, para que numa relação de troca possam transmitir seus saberes e fazeres, e desse modo a modernidade possa desenvolver um novo projeto civilizatório que contemple a tradição.